18.4.17

thirteen reasons why


numa semana fui embora da escola onde dou aula toda quinta-feira e a última grande comoção netflixiana ainda era stranger things, lá do ano passado; cheguei na escola na semana seguinte e todo mundo não apenas já conhecia, tinha visto todos os episódios três vezes da nova série hit thirteen reasons why. eu, como professorinha modernex milennial, preciso me manter atualizada pra continuar cool entre os alunos, então fui ver sabendo mais ou menos por cima que era sobre suicídio e adolescentes.

é muito louco ver o tempo passar.
é muito louco ver as coisas mudarem, é muito louco assistir discussões surgindo, gente e situações novas sendo retratada
é muito louco ver na tv, na internet, coisas da vida real sendo tratadas da maneira que elas devem ser tratadas.

estou no momento no episódio 3 da série, e tava gostando até agora: personagens maravilhosos, bem escritos, uma narrativa interessante, tudo ótimo. mas aí começou o episódio 3. e eu finalmente entendi quão maravilhosa essa série é.

é muito difícil assistir programas sobre adolescentes e realmente entender aquele dramalhão todo. nós, adultos, supostamente já passamos por isso e hoje temos um olhar diferente sobre relações, sobre nós mesmos, sobre quem somos no mundo e de quanta aprovação precisamos. é fácil esquecer aquele mundo minúsculo da escola onde as coisas te afetam de maneira gigantesca e você é subestimado pelos adultos ao seu redor.

pequena sinopse sem detalhes e sem spoilers: hannah descobre que seu suposto amigo fez uma lista de "tops" da sala e ela ganhou: melhor bunda. as outras meninas, especialmente a que foi eleita dona dos melhores lábios, parecem felizes, mas a hannah se sente: 1. traída pelo amigo; 2. exposta na frente do resto dos alunos de maneira invasiva e sexual; 3. magoada bagarai.



quando eu tinha uns 12, 13 anos, um menino da minha sala chamado pedro fez uma lista dessas. já falei disso nesse post de maneira levemente mais humorada do que vou fazer agora. eu entrei na lista, assim como a hannah, na incrível posição de menina de 12 anos com a melhor bunda. as meninas que vieram me mostrar a lista (mônica, dona do melhor rosto, e flora, dona das melhores pernas - me pergunto se elas sequer lembram disso) pareciam felizes, mas eu não consegui expressar a vergonha que eu senti, o self-loathing, a tristeza.... não falei com ninguém porque, né, como eu podia estar triste com uma coisa dessas? um elogio ainda por cima!

esse mesmo garoto, pedro (nome real, já comentei aqui que não acredito nessa de #meuamigosecreto. pedro, se você por acaso cair aqui, eu sou a melody, lembra de mim? pois é, vai tomar no cu, obg), um ou dois anos antes, passou dias e dias dizendo pra todos da sala que eu era feia como uma bruxa, que meu nariz era gigantesco e horroroso como o de uma bruxa, que eu era uma bruxa, etc etc.

primeira lição COMPLETAMENTE TORTA que eu aprendi na vida: quando alguém tá te enchendo o saco, te ofendendo, espalhando mentiras sobre você é porque tal pessoa quer chamar sua atenção; ignore que o bully desencana. não sei que comitê dos pais desajustados ensina essas coisas pras gerações seguintes. migas, atenção: se alguém tá te torrando o saco, fazendo bullying, fazendo você querer desaparecer essa pessoa é uma escrota que quer por motivos de inferioridade espiritual, intelectual, humana e sexual fazer você se sentir inadequada. você não é inadequada, seu coleguinha que é um trouxa escroto então não ignore: conte para alguém imediatamente. conte para várias pessoas. se continuar acontecendo continue contando. eu sei que é foda porque os ~~adultos~~ subestimam os problemas dos mais jovens, descartam tudo como "fase", como "brincadeira", como "coisa de menino". continue tentando. mais cedo ou mais tarde você encontra um adulto que, como eu, se sentia horroroso por motivos de apenas existir, e que vai te ouvir.

pois bem, após ignorar o pedro por alguns dias e perceber que a verdade adulta que me passaram não era realmente verdadeira, fiz a segunda coisa lógica: contei pra minha professora da quarta série, maria amélia. "professora, o pedro tá faz dias dizendo tal coisa tal coisa tal coisa me chamando de briuxa dizendo que meu nariz é horroroso etc etc" (pessoa aqui já chorando SEM A MINHA PRÓPRIA PERMISSÃO porque meu corpo se completa de maneira desvairada e quando eu tento dizer algo importante que me machuca eu choro e aí não parece importante, parece manha. eu odeio meu corpo, eu odeio reagir desse jeito. eu só queria ser levada a sério), ao que maria amélia chama pedro pra resolver o dilema e diz QUOTE UNQUOTE "pedro, você sabe que quando um menino fica pegando no pé de uma menina é porque ele gosta dela né" e fim pedro nunca mais disse um pio sobre mim e foi amigável até nossa formatura no terceiro colegial apenas por medo de que alguém achasse que ele gostava de mim.

e eu aprendi, na quarta série (mesmo ano em que menstruei pela primeira vez, que bela entrada no mundo feminino), que quando um homem te trata mal, ele gosta de você. pedro aprendeu a mesma lição, trate mal só quando gostar.

muito obrigada, professora maria amélia, por essa grande lição aprendida (e se bobear minha única memória da quarta série).

e obrigada, thirteen reasons why, por quase 20 anos depois, me mostrar que isso é algo que muita mulher aguenta. tem muitas de nós por aí engolindo sapo, tem muitas de nós sendo assediadas enquanto tudo é visto como "elogio" ou "brincadeira" ou "coisa da idade", tem MUITA menina sem coragem de contar pra um adulto porque sabe que eles vão descartar como bobagem.

pode ser bobagem, pode não ser. eu tive sorte de ao longo de todo meu caminho escolar e adolescente ter tido sempre um ou dois grandes amigos comigo, amigos tão "inadequados" quanto eu. eles ficaram pra trás, meus amigos mudam conforme mudam as fases da minha vida, mas são sempre os ideais pra mim naquele momento. mas tem gente que não tem essa sorte. tem gente que se sente sozinho 24/7.

outra sorte que tive foi de uma mãe que sempre me disse: se tem alguém tentando de deixar mal, se tem alguém te criticando, te fazendo sentir feia, gorda, esquisita, mal de qualquer jeito, o que for: isso é com eles, não com você. a palavra que minha mãe usa é inveja, não sei é isso mesmo, mas point is: alguém tá tentando se sentir bem ao fazer você se sentir mal. se essa é a única maneira que essa pessoa tem de se sentir melhor, pobre dela. you do your thing. demorei muitos e muitos anos pra realmente assimilar isso e por em prática, mas ainda bem que ouvi isso desde sempre.

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